quarta-feira, janeiro 19, 2022
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    Artigo: A crise Hídrica e a sustentabilidade nos negócios

    07/04 – Mauro Ambrósio* / Scritta
    faltadeagua
    Atualmente, o Estado de São Paulo sofre as consequências da pior estiagem dos últimos 80 anos. Classificada comumente como crise hídrica, essa situação vem causando sérios problemas que afetam a qualidade de vida de todos na região.
    A origem dessa situação, em parte, reside na falta de água nas nascentes que abastecem o principal reservatório hídrico da Grande São Paulo, o Sistema Cantareira. Outros reservatórios importantes também sofrem com este problema, como os do Sistema PCJ (Piracicaba, Capivari e Jundiaí). A falta de chuva em quantidade suficiente, o consumo excessivo e a má preservação das áreas de nascentes, das margens dos corpos hídricos e de todo ecossistema das bacias são as principais causas da diminuição nos níveis das represas.
    A crise hídrica já afeta também a produtividade industrial e agrícola, que por sua vez traz consequências à oferta de empregos, causando desequilíbrio econômico e social. A escassez no Sistema Cantareira levou a Agência Nacional de Águas (ANA) a tomar providências imediatas, sendo uma delas a restrição de 30% na captação de água do Rio Jaguari, que atualmente abastece a região sul do Estado de Minas Gerais, a fim de reverter esse volume para o Sistema Cantareira. Essa restrição na captação, porém, provoca efeitos danosos para a produção agrícola e industrial da região, que dependem do recurso hídrico para garantir sua produtividade.
    Segundo estudo realizado em maio de 2014 pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), mais de 3 mil postos de trabalho já foram fechados devido à falta de água e tais demissões são decorrentes da baixa produtividade das indústrias pela ausência do recurso hídrico. O estudo ainda indica que a situação pode agravar-se caso a oferta de água não se regularize.
    A sustentabilidade como proteção à crise
    A pergunta que todos fazemos é como essa situação poderia ser evitada. A resposta está em um conceito cada dia mais utilizado e comentado, a sustentabilidade. Termo que, apesar de popularmente associado a questões ambientais, tem um significado que reflete um alicerce baseado no desenvolvimento equitativo dos pilares social, ambiental e econômico. É claramente o que ocorre com a situação da água: apesar de ser um recurso natural, sua má gestão traz impactos sociais e econômicos.
    No universo corporativo, a adoção de práticas sustentáveis pelas organizações possibilita um maior preparo para situações de crise. Por exemplo, a construção de um planejamento estratégico sustentável baseado em processos direcionados à prevenção, mitigação e reversão de impactos ambientais proporciona à organização maior controle de sua produção, principalmente diante de um cenário de crise ambiental.
    Para a boa gestão de uma empresa, instituição filantrópica ou órgão público, é necessário que exista planejamento. Segundo o Ministério do Planejamento, “as dimensões do planejamento e da gestão devem dialogar com a elaboração de uma estrutura institucional capaz de construir e reforçar os canais que possibilitem atender o cidadão”. Esse preceito aplica-se também às organizações privadas com ou sem fins lucrativos, nas quais o objetivo é o atendimento ao consumidor ou beneficiado.
    É imprescindível a coleta de dados fidedignos com o objetivo de embasar a gestão e o planejamento das estratégias, capazes de promover crescimento equitativo nos campos econômico, ambiental e social. Dessa forma, entende-se que o planejamento estratégico, aliado à sustentabilidade, promove uma gestão preventiva de riscos relacionados a impactos ambientais negativos. No caso da carência de água, organizações que possuem baixo consumo, por conta de ações de redução previstas no seu planejamento estratégico com foco na sustentabilidade, não teriam sua produtividade afetada da mesma maneira que organizações que possuem um planejamento, mas com enfoque restrito em resultados financeiros.
    A BDO elaborou uma nova edição do seu Estudo de Sustentabilidade, no qual levantou, entre mais de 120 organizações, questões relacionadas ao consumo de água e à dependência de processos produtivos em relação ao recurso hídrico. Empresas de todos os portes e setores necessitam de água em sua atividade, algumas mais, outras menos. No entanto o setor industrial é o que apresenta maior consumo, em função das grandes quantidades utilizadas para funcionamento, manutenção e higienização de equipamentos, além de utilizá-la, muitas vezes, como insumo.
    O Estudo de Sustentabilidade BDO 2014/2015 retrata que apenas 8% das organizações participantes consideram o recurso hídrico indiferente para sua produtividade. O número indica que as instituições percebem a importância da água para garantir a continuidade e funcionamento das operações. O levantamento também analisou os principais impactos que já foram percebidos por quase metade das organizações participantes, decorrentes da atual situação de crise de água.
    Para que exista diminuição no consumo de água, é necessário viabilizar mudanças de conduta e/ou de infraestrutura. Essas alterações já são realizadas em 35% das organizações pesquisadas. Vale ressaltar que tais modificações possuem maior potencial de resultados positivos quando tomadas antes de uma situação de crise, a implementação de um Sistema de Gestão Ambiental (SGA) possibilita que os impactos ambientais da organização sejam monitorados e, então, mitigados ou até eliminados. Porém, sua implantação é trabalhosa e seus resultados são de curto, mas principalmente de médio e longo prazos.
    Quando ações são tomadas apenas no período em que uma situação de crise já está instaurada, geralmente são criados planos de emergência, com o objetivo de evitar grandes prejuízos. Entretanto, muitas vezes tais planos não atingem os resultados que podem ser obtidos com o planejamento adequado. Neste contexto, 61% das organizações que responderam à pesquisa já possuem planos de emergência no caso da situação de escassez de água permanecer por um período maior.
    São Paulo passa por um cenário de crise hídrica que afeta o desenvolvimento econômico de diversos setores e, inclusive, apresenta potencial de piorar caso a situação se prolongue por mais tempo. Uma situação adversa que pode parecer um problema para as organizações, muitas vezes pode se tornar o início da aplicação de um planejamento estratégico sustentável que irá trazer grandes benefícios econômicos. A sustentabilidade mostra-se como uma tendência de mercado capaz de reverter quadros institucionais críticos e proporcionar a continuidade das atividades com a qualidade e a quantidade desejada.
    *Mauro Ambrósio é sócio-diretor da BDO para a área de sustentabilidade
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