O longo caminho da equidade de gênero nos ambientes corporativos

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Artigo escrito por Mylena Cuenca*

As mulheres estão conquistando cada dia mais espaço no mercado de trabalho. A pesquisa International Business Report (IBR) – Women in Business 2019, realizada pela Grant Thornton com mais de 4.995 empresas em 35 países, mostra que 29% dos cargos de liderança são ocupados por mulheres. Um crescimento de cinco pontos percentuais em relação ao relatório de 2018. Apesar dos avanços significativos conquistados de uns anos para cá, a mulher ainda enfrenta muitos obstáculos na carreira, o que ainda nos impede de conquistar a equidade de gênero nos ambientes corporativos.

Um ponto bem discutido no RH de várias empresas é a maternidade. Existem gestores e líderes que se ao final de um processo seletivo tiverem de optar por um homem ou mulher, optarão pelo homem, pois não há o “perigo” de afastamento devido a gravidez. Existem muitas empresas que demitem uma funcionária assim que essa volta de licença maternidade, pois acreditam que ela não se doara o suficiente para empresa depois de ter um filho.

Obviamente esse é um preconceito velado, pois nenhuma empresa admite tal conduta. Mesmo assim, vemos acontecer com frequência. No Brasil, a lei e as empresas entendem a licença maternidade como um direto da mulher, enquanto em alguns países no exterior a licença é entendia como um direto da criança. Ou seja, o bebê tem o direito de ser cuidado pela mão e pelo pai, e portanto o afastamento leva em conta o período que o recém-nascido precisa para crescer e se desenvolver. Infelizmente, muitas empresas no Brasil têm em sua política interna, também de maneira velada, demitir a mulher assim que ela volta da licença.

Por não terem as tarefas domésticas e as responsabilidades com os filhos divididas igualmente com seus parceiros, a jornada dupla, muitas vezes tripla, coloca a mulher longe dos estudos, impedindo que elas desenvolvam seus conhecimentos e cresçam profissionalmente. A falta de aprimoramento de suas habilidades técnicas e a atualização restringem o acesso a novas oportunidades, impondo uma nova muralha de diferenciação.

Em relação a outros tipos de cobranças impostas à mulher que podem parecer sutis, mas que acabam criando barreiras invisíveis, estão as cobranças sociais para que ela esteja sempre dentro de um “padrão de beleza” imposto. Estar sempre maquiada, cabelos alinhados, com roupas elegantes, com boa postura e aparência. Pode parecer exagero, mas tenho certeza que será muito difícil um homem te dizer que perdeu uma oportunidade no mercado de trabalho por ter ouvido de um recrutador que sua aparência parecia muito cansada, devido a olheiras aparentes ou porque ele estava descuidado devido ao fato de não parecer se importar em retocar a raiz do cabelo. Esses são só alguns exemplos de imposições estéticas que nós mulheres sofremos.

É claro que não poderíamos deixar de falar da resistência que muitas executivas e líderes enfrentam por não serem respeitadas enquanto chefes de suas posições. As mulheres em cargos de liderança precisam se provar competentes inúmeras vezes mais do que um homem na mesma posição. Quando a liderança feminina acontece para uma equipe composta em sua maioria por homens, a desconfiança sobre suas habilidades triplica. Essa falta de apoio, essa solidão, essa desconfiança constante sobre suas habilidades, afasta ainda mais as mulheres dos cargos de liderança e aumentam a distância entre a equidade de gênero no mercado de trabalho.

A boa notícia é que, apesar do abismo e dos inúmeros obstáculos que as mulheres podem enfrentar no mundo corporativo, as empresas estão dando passos importantes para reduzir essa diferença. A diversidade em cargos de liderança já é entendida como indispensável nas grandes organizações, afinal de contas, ter visões amplas e diversas traz maior pluralidade para os debates e para a resolução de problemas. A criação de uma cultura inclusiva está entre as medidas que podem ser adotadas pelas empresas para reduzir um pouco essa disparidade entre os gêneros.

Evidenciar essas diferenças mostra o quanto algumas barreiras são estruturais e intrínsecas à nossa cultura machista. Outro passo importante que tenho notado é o próprio auto empoderamento das mulheres, ou seja, uma vez que elas mesmas se convencem que possuem as habilidades necessárias para os cargos que estão pleiteando, que elas são sim o bastante, essa segurança transparece nas entrevistas. Ai então vejo as mulheres, finalmente, querendo e concorrendo de igual para igual com os candidatos, independe do gênero.

Transformar esse cenário vai levar tempo, mas algumas ações afirmativas já estão modificando as novas configurações do futuro do trabalho. Apesar de parecer ainda distante estamos em rumo de mudanças significativas para todos. Como diria Lao-Tse: Uma longa caminhada começa com o primeiro passo. Vamos em frente!

*Mylena Cuenca é headhunter na Trend Recruitment e formada em administração de empresas pela Universidade presbiteriana Mackenzie.

 

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